Hoje falta-me a imaginação. Por isso falei com o meu Irmão Fernando, sim o Pessoa, e pedi-lhe que me deixasse ter a honra de por neste pobre cantinho do escriba menor um dos seus mais sublimes e esotéricos poemas. Ele, na sua bonomia e cofiando o bigode depois de saborear um café no velho Martinho, o da Aracada, lá me disse "bom, põe lá o dito óh eterno Aprendiz". E eu agradecendo, curvado de respeito, a benesse aqui vos trago esssa peça etérea de seu nome Iniciação, sentindo um intenso frémito espinoascendente que agitou os meus pobres neurónios e demais entidades celulares que povoam este amendoim torrado habitante do craniozito, que encima a casca corpórea de Moi.
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais:
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ’stãs morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.
Presença, nº 35, Maio, 1932.sa peça etérea.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
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